SANTA DICA DE LAGOLÂNDIA

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Lagolândia, único distrito do município de Pirenópolis, em Goiás, foi fundada em 1920. A localidade vive praticamente da agropecuária, mas tornou-se conhecida nacionalmente graças a Benedita Cipriano Gomes, a Santa Dica de Lagolândia, cuja história é contada por diversos pesquisadores que relatam a história goiana. A memória dessa personagem de presença marcante em seu tempo é conservada por quem conhece, mesmo por ouvir dizer, sua trajetória de vida dedicada à pregação de promessas bíblicas ou proféticas, razão pela qual ela continua sendo invocada por quem tem fé no sobrenatural.

Mário Ribeiro Martins, escritor, poeta, jornalista e historiador, membro da Academia Goiana de Letras e da Academia Tocantinense de Letras, escrevendo sobre Benedita relata que ela nasceu em Lagolândia no dia 13/04/1906, e que aos três anos de idade começou a ter visões. Segundo essa descrição, aos “16 anos (ela) sofreu um ataque de catalepsia, sendo dada como morta. Na hora do tradicional “banho do defunto” as mulheres verificaram que ela estava suando. Mas para os presentes e para o povo da época, ela ressuscitou. Sua fama se espalhou pelo Brasil e as pessoas começaram a procurá-la em Lagolândia. Segundo o escritor, logo depois disso Benedita iniciou um movimento messiânico mal visto pela Igreja e pelas autoridades, tanto que em decorrência dessa atividade policiais da Força Publica de Goiás receberam ordens para cercar o povoado de Lagolândia e expulsar à bala os seguidores da moça, que aos dezenove anos de idade foi presa e banida da localidade. Isso aconteceu em 14/10/1925.

Sobre o mesmo assunto o site www.pirenópolis.com.br publica a informação de que Benedita nasceu em 17/01/1903, na fazenda Monzodó, a quarenta quilômetros de Pirenópolis, tendo adoecido aos 13 anos. Após três dias de prostração ela foi dada como morta, mas “ressuscitou” quando recebia o tradicional banho dos defuntos, despertando a atenção dos sertanejos locais “que começaram a vê-la como portadora de algum tipo de poder”. Vista no princípio como curandeira, pois examinava os que a procuravam e receitava os remédios de que precisavam, logo em seguida passou a ser chamada de milagreira, e depois de profetiza, já que antecipava acontecimentos futuros. Isso “transformou a adolescente em “santa”, para aqueles que ali se achavam. Fez com que sua propriedade rural se tornasse habitação permanente de grande número de pessoas, originando mais tarde a ‘República dos Anjos’, atual Lagolândia”.

Continuando, diz o referido texto que a religiosidade de Benedita consistia “em conferências realizadas pela mesma e os anjos que faziam parte da falange que ali vinha propor um novo modo de vida à população, ou mesmo para operar prodígios por intermédio daquela que era escolhida para tal”, contando-se, a esse respeito, que ela realizava milagres como o da levitação, cura de leprosos e de outros enfermos. Como a romaria aumentava, a influência da milagreira passou a incomodar os políticos goianos que temiam um episódio semelhante a Canudos: na “República dos Anjos” as leis não eram obedecidas, o povo não pagava tributos e as fazendas deixaram de ter limites, transformando-se em uma espécie de comunidade socialista.

“No episódio conhecido como o “fogo”, em 14/10/1925, a guarda estadual atacou o povoado e Dica ordenou que todos se lançassem nas águas do Rio do Peixe para se salvarem. Segundo depoimento das pessoas mais antigas da cidade, anjos aparavam as balas que castigavam o povoado, enquanto outros dizem que Benedita as detinha com os longos cabelos negros. Mais tarde ela foi presa e levada para a capital do estado, Goiás Velho”.

Esse episódio só aumentou a crença de que a mulher tinha proteção celeste. Dizem, inclusive, que na revolução de 1932 ela comandou um pelotão de 150 homens conhecidos como “pés com palha, pés sem palha”, pelo motivo de que sendo a tropa integrada por gente que confundia esquerda com direita, ela usou o artifício de amarrar um feixe de palha no pé direito de cada um, para ensinar-lhes a marchar. Esse contingente retornou sem nenhuma baixa, sendo tal fato atribuído aos milagres da santa. Levada ao Rio de Janeiro e São Paulo, para testes na Federação Espírita, ela ficou conhecendo Mário Mendes, então jornalista dos Diários Associados, com quem acabou se casando. Segundo o site acima mencionado, “mais tarde, ela foi vendida pelo próprio marido para outro homem, por quarenta contos de réis”.

Por sua importância, Dica chegou a ser retratada numa pintura em nanquim por Tarsila do Amaral, um dos principais nomes do modernismo brasileiro. Segundo alguns autores, a santa faleceu em 1970, em Goiânia, vitimada por um problema intestinal, enquanto para outros a causa da morte, ocorrida em sua terra natal, foi a doença de Chagas. Apesar de tudo, seu misticismo permanece vivo na cidade de Lagolândia e outras regiões, onde circulam relatos de curas conseguidas por “fiéis” mesmo depois de sua morte.

A Escola Estadual Benedita Cipriano Gomes, instalada naquela cidade, mantém o programa “Viva e Reviva – Santa Dica”, cujo objetivo é divulgar e dar visibilidade à história de Benedita Cipriano Gomes, mulher que teve papel importante na vida do Distrito de Lagolândia.

Sobre ela já se produziram dezenas de livros e filmes, destacando-se: “SANTA DICA: ENCANTAMENTO DO MUNDO OU COISA DO POVO”, de Lauro Vasconcellos, “SETE LÉGUAS DE PARAISO”, de Antonio José de Moura, “REPÚBLICA DOS ANJOS” (filme), de Carlos Del Pino, “SANGUE NAS ASAS DA GARÇA” (teatro), Jesus Barros Boquady, “SANTA DICA DE GUERRA E FÉ” (documentário), de Márcio Venício Nunes.

Em Lagolândia, pequeno povoado com poucas centenas de habitantes, algumas dezenas de casas rodeiam uma praça onde o busto de Santa Dica divide o espaço ali existente com bancos, flores, imagens de Nossa Senhora e o sepulcro da Santa. Ainda de acordo com o informativo de Pirenópolis, na casa onde Dica morava, funciona agora um centro de reuniões espíritas.