PANTALEÃO E A HISTÓRIA DA RAPOSA

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PANTALEAO E A HISTORIA DA RAPOSA 1– Até que enfim apareceu! – gritou Pantaleão, feliz, ao perceber que o compadre Roberval despontava. O zaino riscou junto ao batente do alpendre, Roberval desmontou e entregou a rédea do animal a Pedro Bó, que o conduziu ao quintal, onde lhe daria água e descanso.

– É Deus quem lhe traz, meu compadre. Entre, se acomode, a casa é sua.

Dona Terta chegou com os braços afastados para o abraço no compadre. Conversaram o inevitável trivial, perguntando e sabendo das coisas e das gentes. A melhora da comadre Inocência, esposa de Roberval, foi motivo de alegria para Dona Terta, que andava muito preocupada com o estado de saúde da amiga.

– Só não veio comigo porque a gente não queria deixar a casa só – explicou Roberval. – Tem uma raposa que anda cercando o galinheiro, e Inocência tem muito jeito pra fazer armadilha de pegar raposa.

Pantaleão suspirou fundo, tirou os óculos, com o indicador dobrado coçou o lugar onde antes tivera um olho, recolocou os óculos. Terta percebeu.

– Meu velho se lembrou daquela raposa, não foi:

Era isso. A história da raposa não podia ser esquecida numa hora em que o nome do animal fora falado.

– Conte o causo, compadre – pediu Roberval, já bebendo na caneca a água fresquinha recém-tirada da quartinha. Dona Terta tomou a frente.

– Agora, não. Deixe Pedro Bó voltar, que se ele não escutar essa história, ele morre. Pedro Bó é doidinho por essa causa da raposa.

Não foi preciso esperar muito. Mais uns minutinhos e já vinha Pedro Bó manquitolando, mordendo um pedaço de capim, enxugando a testa com a manga da camisa.

– O cavalo tá bebido e comido, Seu Roberval – anunciou ao entrar. – Oh, cavalo mais lindo. Botei ele na sombra. Ele tá que parece um bispo, de tão quietinho.

– Pedro Bó, vem pra cá que Pantaleão vai contar pro compadre Roberval a história da raposa.

– Eita! – Pedro Bó deu um pulo de alegria. Os olhos se encheram de lágrimas. – O senhor pra contar estava esperando por mim?

– Não, Pedro Bó. Tava esperando pelo Dr. Getúlio Vargas. Tá vendo, Terta? Foi pra escutar essa besteira que eu esperei. Pedro Bó, vá lá pra dentro e escreva cem vezes “preciso aprender a deixar de ser besta”.

 Dona Terta controlou o marido, evitou o castigo, consolou Pedro Bó, serviu um cafezinho e Pantaleão velho de guerra tomou a palavra:

– O causo se deu em Penedo, em 1927. Como vosmicê sabe, compadre Roberval, bicho que raposa aprecia é galinha. Bote uma paca, bote um jumento, bote uma capivara, a raposa se vê, nem faz conta. Mas por galinha o diacho da raposa é doidinha. É feito Terta por missa: não enjeita. Pois bom. Um dia, era já de meio-dia pra tarde, se não fosse duas horas, era por aí. Eu tava mastigando uma tora de rapadura, deitado em minha rede armada na varanda, quando comecei a escutar um barulho que vinha do terreiro. Era um tal de co-co-có, co-co-có, co-co-có..

– Era uma galinha?

– Não, Pedro Bó, era um jegue. Tinha acabado de botar um ovo e tava festejando. Terta, traga aquela chibata que coronel Heliodoro me deu no dia dos meus anos.
Ora, que mania.

Pedro Bó não tinha mesmo jeito. Só se alguém lhe passasse um esparadrapo na boca. Dona Terta, mulher santa, mais uma vez acomodou as coisas.

– Siga adiante, compadre – pediu Roberval, pernas cruzadas, mostrando ostensivo a espora de prata.

PANTALEAO E A HISTÓRIA DA RAPOSA 2– Pois bom. Aquele cacarejo aperreado não parava. Era có-có-có e mais có-có-có. . . e tome có-có-có. Eu pensei comigo: “homem, as galinhas tão afuleimadas”. Saltei da rede e entrei em casa. Mal eu entrei, escutei o latido do lado de fora. Ora, mas será possível? Eu tou lá, tem coisa aqui, venho pra aqui, tem coisa lá? Mas o latido de cachorro era diferente do latido normal, compadre. Era um latido triste, lamentoso, não sabe? Corri pra ver, era meu cachorro Rompe-Ferro. Sozinho. Eu me azucrinei: “Rompe-Ferro, cadê os teus irmão?” – o cachorro não respondeu, compadre, que cachorro não fala. Mas entende, que parece gente. Rompe-Ferro sacudiu o rabinho, espiou triste, como quem diz “desapareceram”. Não era um dia bom, compadre. Aqueles três cachorros – Rompe-Ferro Fura-Nuve e Corta-Vento – eram a alegria da minha vida, sem botar nisso Terta, que Terta é coisa de outro valor. Mas entre os cachorros e Pedro Bó eu nem sei quem preferia. Pulei o muro do alpendre, atravessei o terreiro da frente, corri pro mato gritando: “Fura-Nuve! Corta-Vento!”. Foi quando eu ouvi uma voz dentro do mato gritar: “Pantaleão, corre aqui!” Correndo como eu vinha, correndo eu segui no rumo do grito. Era Inacinho, um menino que trabalhava comigo na ocasião. O que foi, Inacinho? Espie aqui, Seu Pantaleão. Compadre, Inacinho tinha nas mãos as penas de quatro galinhas que a raposa tinha comido.

– Cruas?

– Não, Pedro Bó. Na cabidela. A raposa botou um avental, foi pra beira do fogão e preparou as galinha de cabidela pra tu comer mais tua mãe. Hoje você dorme no sereno, que é pra ver se pega um difluxo.

– Continue, compadre – pediu Roberval, menos interessado do que aparentava..  Ninguém lhe notara as esporas de prata.

– Pois bom. A perda das galinhas irritou o homem. Tinham sido quatro e isto significava que a terça parte do galinheiro havia sido devorada pela raposa. Era preciso tomar uma providência e o homem capaz de uma atitude no caso era ele mesmo, Pantaleão Pereira Peixoto, criado, desde menino, de modo a nutrir um ódio enorme pela covardia daquele bicho miserável que come o almoço dos domingos. Inacinho afirmara que vira a raposa ganhar o mato na direção do engenho. Pantaleão, com o ódio nas veias, pegou sua espingarda coió, chumbeiro de chumbo grosso, tabaqueiro de chifre de bode e saiu na cata da raposa. Andou mais de duas léguas farejando o rastro. Nenhum perdigueiro tinha faro melhor. Ele sabia, numa simples olhada, o trilho da raposa. Na volta do bananal, avistou a loca de pedra. Ali acabava o rastro. Por onde sair, a raposa não tinha. Mas não era uma raposa que havia na loca, eram muitas. Sem que ele esperasse, as raposas começaram a sair;

– E sai uma e sai outra e sai outra. Compadre, era um tal de sair raposa que não tinha cristão que desse jeito. Quando chegou em oitenta, eu parei de contar porque já tava saindo era de três em três, de quatro em quatro. Eu nem imaginava que naquela loca coubesse tanta raposa. E sai mais uma e sai mais cinco, eu me embaralhei na conta. Só sei, compadre, que uma delas me viu, avisou pras outras, quando eu dei fé, em vez de eu caçar as danada, elas é que iam me caçar. Pensei comigo: vou subir num pé de pau.

– Pra escapar delas?

– Não, Pedro Bó. Ia subir num pé de pau pra fazer um discurso: meus senhores, se vós conhece gente mais besta do que Pedro Bó, me amostreis. .Hoje você dorme de botina pra sonhar com o cão.

– Continue, homem de Deus – pediu o compadre. – Acabe essa estória enquanto eu tiro as minhas esporas de prata;

– Pois bom – seguiu Pantaleão, sem prestar atenção nas esporas já citadas. – Eu botei reparo numa coisa: eu tava debaixo de um pé de imburana. O galho mais baixo não estava a menos do que quinze metros. As raposas se formavam em grupos de cinco, de oito. Eram muitas. Não importava, agora, saber qual delas tinha comido as quatro galinhas. A vida de Pantaleão estava em perigo. Se as raposas se enfurecessem e resolvessem atacar, tudo podia acontecer. Ele mediu a altura do galho mais próximo e preparou o salto.

– Eu me encolhi, compadre, e me preparei mode pular pra cima. Pedi a proteção de São Francisco de Assis – santo de palavra, que nunca me deixou em necessidade – e vupt, subi.

– Compadre, você estará querendo me dizer que num pulo subiu quinze metros e pegou o galho?

Pantaleão exasperou-se. Não gostava que duvidassem do que dizia e, muito menos, que o julgassem homem de menor competência. E o modo como o compadre falara, insinuava mais coisas.

– Não apreciei o jeito de você fazer essa pergunta, compadre Roberval. Estou lhe recebendo na minha casa com muito amor, pra você pagar essa gentileza com uma pergunta safada como essa.

– É que eu acho que quinze metros – desculpava-se o compadre – é muita altura. Você num salto subir quinze metros.

– Eu vou ser sincero, Roberval. Eu não peguei o galho no pulo que dei, não.

– Ah, bem.

– Quando eu pulei, passei pelo galho, mas na descida do pulo caí escanchado nele que foi uma beleza;

– Bem, a prosa está boa, mas as esporas de prata estão me apertando – disse o compadre, levantando-se e saindo à busca do seu zaino. O que ouvira já era o bastante. E havia a raiva das esporas não terem sido elogiadas. Nem notadas, sequer. Despediu-se com um aceno, já galopando pela estrada.

– Foi-se embora e nem ouviu a história da raposa … – lastimava-se Pantaleão. – E me diga uma coisa, Terta: ele estava de espora?