MULA DO PADRE, A

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MULA DO PADREUm dia no engenho, / já tarde da noite / que estava tão preta / como carvão… / A gente falava de assombração:

– O avô de Zé Pinga-Fogo / amanheceu morto na mata, / com o peito varado / pela canela do Pé-de-Espeto!

– O cachorro de Brabo Manso / levou, sexta-feira passada, / uma surra das caiporas!

– A Mula de Padre quis beber o sangue / da mulher de Chico Lolão…

Na noite preta como carvão / a gente falava de assombração! / Lá em baixo a almanjarra, / a rara almanjarra, / gemia e rangia, / que o Engenho Alegria / é bom moedor…

Eh, Andorinha! / Eh, Moça-Branca! Eh, Beija-Flor. . .

Pela bagaceira / os bois ruminavam / e as éguas
pastavam / esperando a vez / de entrar no rojão. / Foi quando se deu / a coisa esquisita: / mordendo, rinchando, / as pôpas e aos pulos, / se pondo de pé / com artes do cão, / surgiu uma besta sem ser dali não…

– Atalha a bicha, Baraúna!

– Sustenta o laço, Maracanã!

E a besta agarrada / entrou na almanjarra, / tocou-se-lhe a peia / até de manhã.

E depois que ela foi solta / entupiu no oco do mundo! / Num abrir e fechar de olhos / a maldita se encantou…

De tardinha, / gente vinda / da cidade / trouxe a nova / de que a ama / de seu padre / Serrador, / amanhecera tão surrada / que causava compaixão!

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Na noite tão preta como carvão, / a gente falava de assombração.

Almanjarra – Grande moenda feita de madeira com tração animal, para extração de caldo de cana.

Peia – Surrar alguém, açoitar.