MACACO VELHO NÃO METE A MÃO EM CUMBUCA

Postado por e arquivado em , .

MACACO VELHO 1A árvore sapucaia, também conhecida como castanha-sapucaia ou cumbuca-de-macaco, é encontrada na floresta amazônica e Mata Atlântica. Ela pode atingir até 30 metros de altura – embora a maioria fique entre os 5 e 15 metros -, possui copa densa e produz frutos arredondados e de casca dura, com formato de urna, ou cumbuca (cabaça grande com boca estreita).

Estas encerram uma boa quantidade de amêndoas aromáticas e oleaginosas, que podem ser consumidas cruas, cozidas ou assadas, podendo substituir, em igualdade de condições, as nozes, amêndoas ou castanhas comuns européias, sendo aproveitadas, também, como ingrediente para doces, confeitos e pratos salgados.

Vazios, os receptáculos das amêndoas são transformados pelo homem em objetos de uso e de ornamento: cumbucas, caçambas, vasos, potes, pratos, marmitas e o que mais for preciso (na ilustração abaixo, uma sapucaia)

Quando o fruto amadurece, as castanhas – com o balançar dos galhos – vão caindo pela estreita abertura existente em sua parte inferior, que também serve como entrada para que os macacos mais novos enfiem a mão vazia a fim de pegar outras castanhas e comê-las. Mas não conseguem retirá-la porque a mão fechada e cheia de castanhas aumenta de volume, deixando-os presos.

A liberdade só é recuperada quando, exaustos, eles abrem a mão e soltam as castanhas. Isso, porém, só acontece com macacos novos, sem experiência da vida… pois macaco velho não mete a mão em cumbuca.

MACACO VELHO 2A descrição mais antiga e minuciosa desse procedi- mento dos macacos foi feita por Ambrósio Fernandes Brandão, um senhor de engenho e escritor português que viveu no Brasil Colonial entre os séculos XVI e XVII e deixou uma obra – Diálogos da Grandeza do Brasil, datado de 1618 – sobre sua estada em terras brasileiras.

Nela, um dos personagens – Brandônio –  esclarece em certa passagem que: “Tomam-nos (os macacos) com laços e armadilhas, dos quaes um escravo meu lhes fazia uma assás galante; a qual era que tomava uma botija de boca estreita e a meava de milho, e assim a punha lançada no chão com alguns grãos por fora ao redor da boca della; e tendo assim a botija preparada na parte onde os bugios costumavam a vir fazer seus furtos, tanto que algum chegava a ella, vendo os grãos de milho, depois de os comer, olhava pelo buraco a ver se achava mais, e tanto que os divisava dentro, mettia a mão pela boca da botija, e quando a queria tornar a tirar para fora já cheia de milho, o não podia fazer, porque como a mettera vazia, pôde bem caber pelo buraco, mas trazendo-a cheia, não lhe era possível pode-la tornar a tirar para fora, por este modo ficava preso; e como ignorava que lhe era necessário tornar a soltar o milho, para poder levar a mão, o que fazia era somente dar muitos gritos, até que ao rebate delles acudia o caçador a lhe lançar um laço, com o qual depois de quebrar a botija, o trazia para casa”

Os macacos são caçados em todos os países habitados por eles, e quase sempre do mesmo modo. Na Índia, os caçadores pegam um coco, fazem um furo no mesmo, colocam lá dentro uma banana ou um pedaço de plástico colorido e brilhante, e o enterram em lugar freqüentado pelos pequenos animais, mas com o furo bem à vista. Quando algum macaco novo enfia a mão pelo buraco do coco e segura firmemente a isca que lá foi colocada, acaba ficando preso e quase sempre é apanhado, pois não raciocina que se abrir a mão e soltar o que está segurando, ficará livre da armadilha.

MACACO VELHO 3O mesmo acontece na África, onde algumas tribos utilizam método assemelhado para conse- guir o mesmo resultado: como os símios que pretendem caçar vivem nos galhos mais altos das árvores, os nativos pegam uma cumbuca de boca estreita e colocam dentro dela uma banana em seguida, amarram-na ao tronco de uma árvore freqüentada por macacos, afastam-se e esperam; em pouco tempo um deles, mais curioso e inexperiente, desce, olha dentro da cumbuca, vê a banana, enfia a mão lá dentro e a pega; mas como a boca do recipiente é estreita, ele não consegue retirar a mão segurando a fruta, e por isso é capturado.

Mas seu destino, nesse caso, é o pior possível, pois ele vai para a panela (na ilustração, uma cumbuca e castanhas da sapucaia).

Assim como acontece com os macacos experientes, seja porque já foram apanhados pela armadilha que lhes preparam, mas conseguiram escapar delas, seja porque já viram outros de seu bando passarem pela mesma situação muitas vezes definitiva e até mesmo mortal, o ser humano também adquire experiência ao longo da vida, com os trancos e tombos que o dia-a-dia coloca em seu caminho.

É assim que ele aprende a agir com um mínimo de astúcia, evitando o que não lhe seja conveniente porque esconde algum perigo ou aborrecimento sério.

E é justamente no sentido de pessoa experiente, vivida, que se aplica o ditado popular “Macaco velho não mete a mão em cumbuca”.