Resultados encontrados: CECÍLIA MEIRELES

CHUVA CHOVE, A

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A chuva chove mansamente… como um sono que tranqüilize, pacifique, resserene… A chuva chove mansamente… Que abandono! A chuva é a música de um poema de Verlaine…   E vem-me o sonho de uma véspera solene, em certo paço, já sem data e já sem dono… Véspera triste como a noite, que envenene a alma, […]

COMPRAS DE NATAL

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A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu. As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de […]

DA BANDEIRA DA INCONFIDÊNCIA

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Através de grossas portas, sentem-se luzes acesas, – e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras: olhos colados aos vidros, mulheres e homens à espreita, caras disformes de insônia, vigiando as ações alheias. Pelas gretas das janelas, pelas frestas das esteiras, agudas setas atiram a inveja e a maledicência. Palavras conjeturadas oscilam no ar de […]

DE UM LADO CANTAVA O SOL

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De um lado cantava o sol, do outro, suspirava a lua. No meio, brilhava a tua face de ouro, girassol!   Ó montanha da saudade a que por acaso vim: outrora, foste um jardim, e és, agora, eternidade!   De longe, recordo a cor da grande manhã perdida. Morrem nos mares da vida todos os […]

DEPOIS DO CARNAVAL

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Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, […]

DESPEDIDA

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Por mim, e por vós, e por mais aquilo que está onde as outras coisas nunca estão. Deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: quero solidão.   Meu caminho é sem marcos nem paisagens. E como o conheces? – me perguntarão. Por não ter palavras, por não ter imagem. Nenhum inimigo e nenhum irmão. […]

DOIS CÂNTICOS E UMA CANÇÃO

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Cântico II   Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens… não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo. Vê a tua vida em todas as origens. Em todas as existências. Em todas as mortes. E sabes que serás assim para sempre. Não queiras marcar a tua passagem. Ela prossegue: É […]

EDMUNDO, O CÉPTICO

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Naquele tempo, nós não sabÍamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada. Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros […]

FIM DO MUNDO, O

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A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo […]

HISTÓRIA DE BEM-TE-VI

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Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será […]