BORBOLETA CINZENTA, A

Postado por e arquivado em , , .

BORBOLETA CINZENTA Dentre milhões de borboletas coloridas, houve um tempo em que havia uma borboleta inteiramente cinzenta. Todas as outras tinham nas asas os mais lindos tons de vermelho, laranja, roxo, amarelo, azul e dourado. Uma única borboleta era toda cinzenta. Absolutamente cinzenta.

– Cinzinha, por que você é assim, toda cor de cinza?

– Ora. O que é que tem ser cor de cinza?

– Nada. É que eu acho engraçado. Nós temos cores maravilhosas nas asas. Não são coloridas? E você é toda cinza…

– É, sou.

Dizia “é, sou”, fingindo não se importar. Mas por dentro Cinzinha bem que lamentava a cor cinza e triste das suas asas.

Daí, a inveja começou a crescer dentro dela. Uma inveja enorme das borboletas coloridas. Fazia de conta que não ligava, mas à noite Cinzinha chorava por causa do triste e feio tom das suas asas. Já nem gostava quando a chamavam de Cinzinha.

– Meu nome é Bórbola!

Nem adiantava o que a mãe dizia, querendo ajudá-la a aceitar as asas cinzentas:

— Nenhuma outra borboleta é cinzenta assim…só você. Não entende, Cinzinha? Só você é assim.

– Mas eu não gosto. E meu nome é Bórbola.

Um dia, o dia amanheceu feio e nublado. Cinzinha, que não tinha amigas, saiu sozinha para o seu passeio diário. Pousou numa parede, dali voou para uma rosa, parou num fio de corda esticado num quintal e, de repente, entrou numa igreja.

– Engraçado…

O que ela achava engraçado era o fato de o padre da igreja ser preto. Cinzinha, até então, nunca vira um padre que não fosse branco, italiano ou holandês. Aquele era preto. E tinha um sorriso aberto. Ria a cara toda, quando ria. Era diferente dos outros padres, mas muito, muito feliz.

Pousada na imagem de Nossa Senhora, Cinzinha começou a entender que a cor das suas asas era como a cor do rosto do padre: não tinha a menor importância.

Era como se o padre também tivesse asa cinzenta. E a inveja começou a sair da borboleta cor de cinza.

Na mesma hora, o dia, que nascera feio, foi embonitando.

As nuvens foram indo para a Europa, o sol saiu. Então, os raios do sol começaram a entrar na igreja.

Passavam pelo vitrô e faziam um caminho de cores que começava a colorir as asas de Cinzinha. A cada segundo, ela mais inveja tirava de dentro. Quanto mais inveja perdia, mais cores lhe vinham às asas.

Na hora em que saiu da igreja, sem ódio ou inveja, já não tinha as asas cinzentas, mas com todos os tons de vermelho, azul, roxo, verde, violeta e dourado.

Dizem que Cinzinha anda triste porque é, hoje, apenas uma borboleta igual às demais, mas eu não acredito nisso. Nenhuma é, hoje, mais colorida do que ela.