ALMA PENADA

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6Alma é uma expressão usada em várias acepções, e sua definição religiosa a de que se trata de uma substância incorpórea que se une à matéria inerte pra lhe dar vida. A crença na existência da alma vem de tempos antigos, pois no texto bíblico (Gênesis, 2,7), está escrito que “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe no rosto um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivente”.

A doutrina espírita, por sua vez, ensina que o ser humano é um espírito que denominamos de alma, preso temporariamente a um corpo de carne; enquanto o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, diz que Deus (Alá), criou a alma e imprimiu nela o discernimento entre o que é certo e o que é errado, dando-lhe para isso dois lados – um que governa o mal e o outro que cuida de evitar este mal – advertindo ainda que “será venturoso quem a purificar e desventurado quem a corromper.” (91:7-10)

Os filósofos gregos Sócrates e Platão, que viveram há 2.500 anos, ensinavam que o homem é uma alma que antes de sua encarnação existia unida às ideias do verdadeiro, do bem e do belo. E que se perturbava ao se servir do corpo para considerar qualquer objeto porque se ligava a coisas que são, por sua natureza, sujeitas a mudanças. 6Em razão disso, concluíam que “as almas nesse estado são arrebatadas de novo para o mundo visível pelo horror daquilo que é invisível e imaterial. E elas então erram ao redor dos mausoléus e dos túmulos como fantasmas tenebrosos que retém alguma coisa da forma material, o que faz com que o olhar possa percebê-las. Essas não são as almas dos bons, mas dos maus, forçadas a errarem nesses lugares onde carregam o castigo de sua primeira vida. E onde continuam a errar até que os apetites inerentes à forma material conduzam-nas a um corpo, e então elas retomam, sem dúvida, os mesmos costumes que foram o objeto de suas predileções”.

Talvez em razão desse pensamento a imaginação popular tenha criado essa expressão curiosa que simboliza o espírito de alguém que já morreu, mas que por algum motivo permanece assombrando pessoas e lugares. Muitas teorias procuram explicar a razão da existência dessas almas errantes que se recusam a deixar o mundo dos vivos, como, por exemplo, a do rico e avarento que teima em não abandonar os seus bens; ou a dos que desejam uma nova chance de fazer aquilo que não fizeram; ou o do ciumento que não aceita da ideia de sua amada se envolver em um novo relacionamento amoroso; dos inescrupulosos praticantes de atividades criminosas ou recheadas de maldades; e outras mais.  A literatura espírita sugere “que indivíduos “sensitivos” percebem a “presença” espiritual daqueles que nos deixaram, e estas sensações podem ser boas ou más, prazerosas ou repugnantes, em face da diversidade de níveis vibratórios que tais espíritos possuam”.

6Quanto ao “penada” da expressão, forma feminina do adjetivo penado – pessoa que está penando, sofrendo – sugere um castigo a que tais seres espirituais estariam sujeitos pelo que fizeram ou deixaram de fazer durante sua vida terrena, embora as religiões tradicionais rejeitem a ideia de que “fantasmas” ou “almas do outro mundo”, paguem seus pecados vagando sem rumo entre os vivos, preferindo colocá-las no céu, no inferno ou no purgatório, conforme o que cada uma tenha aprontado durante o tempo em que permaneceu encarnada no mundo terrestre. Como as pessoas costumam dizer que não acreditam em fantasmas, apesar deles existirem, o fato é que essa crença sobrevive alimentada que é pelos mais diversos temores e as mais variadas superstições.

Os padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que chegaram ao Brasil no século 16, faziam referência, em suas cartas, a um espírito temido pelos indígenas, que a ele davam o nome de Anhangá. O aventureiro alemão Hans Staden, também nessa mesma época, preferiu chamar essa mesma criatura fantástica de Ingange, enquanto o poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) fala sobre o Anhangá em sua obra O Brasil e a Oceania, classificando-o como entidade inteiramente espiritual, responsável por todos os males selvagens. O folclore brasileiro, por sua vez, tem uma variada coleção de seres fantásticos, como o Corpo-Seco, um homem ruim durante a sua vida, e que depois de morto se transformou na alma penada que vive assustando as pessoas; ou a Pisadeira, velha de chinelos que aparece durante a madrugada para pisar na barriga das pessoas, provocando-lhes falta de ar; ou o Angoera, alma de alguém muito ruim que depois de morto não conseguiu ir para o outro mundo e ficou morando em ruínas, de onde sai para assombrar os viajantes; além de muitos outros mais.

Se tudo o que foi exposto é falso ou verdadeiro, isso não vem ao caso. O que importa é que a crendice nos legou a expressão aplicada costumeiramente a quem anda furtivamente pelos cantos da casa ou pelas ruas, e aparece de repente, assustando as pessoas. Por isso diz-se que ele está parecendo ser uma alma penada.