1832 – CABANADA

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Entre 1832 e 1835, as matas situadas ao sul de Pernambuco e ao norte de Alagoas abrigaram o movimento rebelde que recebeu o nome de cabanada porque seus integrantes, os chamados “cabanos”, habitavam rústicas cabanas levantadas por eles à beira dos rios e riachos lá existentes.

Capitaneados pelo mulato Vicente Ferreira de Paulo, cerca de mil homens – pequenos proprietários, índios, brancos pobres sem terras e sem trabalho, e negros fugidos chamados regionalmente de papa-méis – se agruparam no local denominado Panelas de Miranda, sem que, de início, tivessem em vista qualquer objetivo político, limitando-se apenas a viver do roubo e da pilhagem.

Essa rebelião, que posteriormente acabou provocando a deposição do presidente da província de Alagoas, Bernardo de Sousa Franco, não deve ser confundida com a Cabanagem, um dos maiores movimentos populares da história do Brasil, ocorrido na região do atual estado do Pará.

Texto publicado no site www.biblioteca.ibge.gov.br, explica que “segundo fontes locais, foi nos fins do século 18 para o limiar do século 19, que o cidadão Manoel Santiago de Miranda, português residente em Garanhuns e cobrador de dízimos na região da qual Panelas fazia parte, comprou uma gleba de terras ao norte dessa localidade, pelo valor de 600$000 (seiscentos mil réis). Hoje, essa parte de terras tem o nome de Patrimônio e pertence à Paróquia. Aquele cidadão erigiu uma capela, no local onde atualmente se acha a igreja matriz; construiu também uma pequena casa, perto da capela.

0 local ficou conhecido pelo topônimo de Panelas de Miranda, em face de situar-se entre três serras que tomaram os nomes de Bica, a leste – onde se localiza a fonte que abastece a cidade de água – do Boqueirão, ao norte – a qual deve o nome à circunstância de ter somente uma passagem transitável – e dos Timóteos, ao sul – assim denominada por ter abrigado o panelense João Timóteo de Andrade, no levante conhecido como Guerra dos Cabanos. Miranda mandou confeccionar imagem do Senhor Bom Jesus dos Remédios, no tamanho de um homem, em madeira de cedro, trazendo-a em procissão de Petrolina até Panelas e colocando-a na capela. É ainda hoje o santo padroeiro da cidade”.

“Tem Panelas seu nome gravado na História de Pernambuco, ligada que ficou a episódios da chamada Guerra dos Cabanos. Participaram da revolta, entre os anos de 1832 e 1836, os panelenses João Timóteo de Andrade e Francisco José de Barros. O primeiro localizou-se na serra dos Timóteos e o segundo no Sítio Cafundó, que pertence atualmente ao Município de Lagoa dos Gatos. A força legal enviada contra João Timóteo de Andrade aquartelou-se na cidade, em local que tomou o nome de “14”, em lembrança da unidade militar aí instalada.

A força que combateu Francisco José de Barros escolheu o lugar hoje denominado Acampamento, no atual município de Lagoa dos Gatos. Depois de 4 anos de luta, em missão pacificadora chegou a Panelas o Bispo D. João Marques Perdigão, que obteve a rendição dos sublevados com a condição de serem anistiados, terminando aí a “Guerra dos Cabanos”. Na serra dos Timóteos, no Sítio Cafundó e em vários outros lugares ainda se encontra muito material de guerra da época, abandonado ao termo da campanha”.

Em ofício dirigido ao Ministro do Império, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, em 1º de novembro de 1832, o governo de Pernambuco dizia que  “Panelas por cujo interior se derramavão os desgraçados rebeldes, hé hum território de inaccessíveis montanhas, e coberto de gigante arvoredo; poucos homens práticos d’aquelles lugares, grimpando pelos outeiros, fazem repentinamente fogo estragador sobre os nossos caçadores e fogem por pequenos e quaze intranzitaveis trilhos”.

Assim, como as reclamações contra a situação de desordem na região se tornavam  cada vez maiores, forças de milicianos e alguns cidadãos partiram em perseguição a esse bando já bem numeroso, ocorrendo entre eles, então, diversos confrontos armados, sem qualquer resultado positivo para as tropas legalistas. Até que Vicente Ferreira de Paula e seus homens acabaram por ligar-se à revolta de Pernambuco, conhecida por Abrilada, ou Guerra dos Cabanos de Pernambuco.

Após a finalização do conflito em 1835, com os sucessos anteriores dos “batedores das matas” sob a condução estratégica do presidente da província de Pernambuco Manuel de Carvalho Pais de Andrade – com forças militares destruindo ranchos encontrados, tomando cavalos, farinha e roças para privar os cabanos de alimentação e transporte – uma parcela dos revoltosos, atingida não somente pela fome, mas também pela “terrível peste de bexiga”,  terminou por aceitar a anistia oferecida pelo governo.

Dissertando sobre o tema, Janaína Cardoso de Melo, doutoranda em História Social pela UFRJ, diz que “a pacificação da área conflagrada não se realizou sob a forma de uma derrota completa para aqueles que se renderam, pois estes receberam algum dinheiro, roupas, instrumentos e sementes para trabalhar a terra, além de cuidados médicos.

O governo agia dessa forma movido pelo temor de uma guerra eterna nas matas, sabendo ser necessária uma negociação com vantagens atrativas aos rebeldes para sua capitulação. Contudo, internamente havia dissidências entre os cabanos, devido à sua heterogeneidade étnica e social, uma vez que experiências de servidão, escravidão e aldeamentos ao mesmo tempo em que forneciam elos de cumplicidade, devido a suas especificidades também promoviam divergências”.

“Assim, os índios retornariam às suas aldeias, bem como os pobres livres seriam reintegrados à condição de moradores e lavradores do sistema sesmeiro, porém aos escravos só restaria a volta à escravidão, uma vez que constituíam “propriedade” dos senhores de engenho. Por isso a “Guarda Negra”, que se consolida entre 1834 e 1836, ameaça e efetua o assassinato dos desertores que representavam o enfraquecimento do combate.

Finalizada a guerra cabana, formou-se uma sociedade escondida no Riacho do Mato sob o formato de aldeias mocambeiras que realizavam ataques aos engenhos para libertar os escravos dos plantéis. Esse estado ofensivo duraria até 1850, ano da prisão de Vicente Ferreira de Paula e da promulgação da Lei de Terras que legalizou o avanço dos engenhos de açúcar sobre as terras devolutas que ainda se encontravam nas mãos de pequenos posseiros”.