1556 – MAISON DE PIERRE

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6A Feitoria Maison de Pierre, ou simplesmente Maison de Pierre (“casa de pedra”) localizava-se numa pequena ilha rochosa (hoje aterrada) na barra do canal da lagoa de Araruama (hoje canal do Itajuru), na cidade de Cabo Frio, no litoral norte do estado brasileiro do Rio de Janeiro (na ilustração, “Derrubada do Pau Brasil”. por André Thévet).

Após o estabelecimento das primeiras feitorias portuguesas no litoral do Cabo Frio, outras foram erguidas por franceses no século 16, além de mais algumas por ingleses e neerlandeses no início do século 17, todas visando a exploração do pau-brasil (Caesalpinia echinata).

Tal situação perdurou até a colonização do litoral brasileiro pelos portugueses durante a dinastia filipina (de 1580 a 1640), com o início da construção do Forte de Santo Inácio do Cabo Frio (1615), e a fundação da povoação de Santa Helena do Cabo Frio, a 13 de Novembro daquele ano.

A dinastia filipina reinou em Portugal durante o período de união entre este país e a Espanha, e seus três reis foram Filipe I de Portugal e II de Espanha (1580-1598): Filipe II de Portugal e III de Espanha (1598-1621); e Filipe III de Portugal e IV de Espanha (1621-1640).

A presença francesa ocorreu no litoral norte do atual estado do Rio de Janeiro, em especial 6na chamada “baía Formosa”, interior da barra do canal da lagoa de Araruama. E intensificou-se a partir de 1540 não só em virtude do pau-brasil, madeira então abundante na Mata Atlântica, como também pelas boas relações que os europeus mantinham com os índios tupinambás, habitantes naturais da região.

Em 1548, foram registradas oito viagens de navios francesas transportando toras de pau-brasil carregadas naquele ancoradouro.

No contexto do estabelecimento da colônia francesa na baía de Guanabara – a França Antártica, o padre capuchinho francês André Thévet (na ilustração ao lado) descreveu a sua passagem pelo Cabo Frio, em 1555:

“(…) o morubixaba, que assim tratou a todos, conduziu os franceses até uma grande e comprida pedra, de cerca de cinco pés, na qual se viam sinais feitos por golpes de vergasta, ou bastonetes, ao lado da impressão de dois pés. Afirmam os silvícolas que esses sinais foram feitos pelo maior de seus caraíbas, tão reverenciado entre os índios quanto o é Maomé entre os turcos – o qual lhes ensinou o uso do fogo e o do plantio das raízes. Até então alimentavam-se os selvagens exclusivamente de ervas e caça. Guiados sempre pelo mesmo chefe, procederam os franceses a  um cuidadoso  reconhecimento  da região de Cabo Frio, chegando à conclusão de que não havia nela água doce, senão bem distante. Pelo que ficou resolvido, com pesar geral, que, não obstante a amenidade do clima, era inconveniente o estabelecimento da expedição neste lugar, ou a permanência por mais tempo”. (“Les singularitez de la France Antarctique”, 1557.)

Em 1556, um ano depois que os colonos de Nicolas Durand de Villegagnon se estabeleceram na baía de Guanabara, armadores do porto francês de Ruão fizeram erguer uma feitoria fortificada dominando o ancoradouro na baía Formosa, utilizada anteriormente pelos portugueses com o mesmo fim entre 1504 e 1516 (Feitoria de Cabo Frio). Este estabelecimento francês figura no mapa de Jacques de Vau de Claye (“Le vrai pourtrait de Geneure et der cap de Frie par Jqz de vau de Claye”, 1579. Bibliothèque Nationale de France, Paris.), sobre uma ilhota rochosa na barra do canal da lagoa de Araruama, cartografado como “Maison de Pierre” (“casa de pedra”), e funcionou durante quase duas décadas, tendo sido visitado pelo corsário inglês Anthony Knivet em 1595-1596.

BARRETTO (1958) sustenta que, após a expulsão definitiva dos franceses da baía de Guanabara em 1567, estes teriam se estabelecido na região do Cabo Frio, erguendo um pequeno forte ou reduto, em 1575 (op. cit., p. 209).

6Esse estabelecimento foi combatido por forças oriundas de Santos e da baía de Guanabara sob o comando de Salvador Correia de Sá, entre 1572 e 1573. E finalmente arrasado por forças do Rio de Janeiro sob o comando do governador da Repartição Sul do Brasil, Antônio Salema (1575-1577), que na ocasião mataram ou escravizaram mais de 4.000 Tupinambás (27 de Agosto de 1575), exterminando-os na região, no episódio conhecido como Guerra de Cabo Frio. Sua alvenaria de pedra e seus alicerces teriam sido aproveitados, mais tarde, para erguer o Forte de Santo Inácio do Cabo Frio (1615).

A chamada “Guerra de Cabo Frio” aconteceu em 1575. O Governador do Rio de Janeiro, Antonio Salema, reuniu poderoso exército com gente da Guanabara, São Vicente e Espírito Santo, apoiado por grande tropa tupiniquim catequizada. Os oficiais e soldados seguiram por terra e mar, tendo como objetivo liquidar o último bastião da “Confederação dos Tamoios” e acabar com o domínio francês que já durava 20 anos em Cabo Frio.

Após o cerco e a rendição da fortaleza franco-tamoia, dois franceses, um inglês e o pajé tupinambá foram enforcados; 500 guerreiros foram assassinados a sangue frio e aproximadamente 1500 índios foram escravizados. As tropas vencedoras ainda entraram pelo sertão, queimaram aldeias, mataram mais de 10.000 índios e aprisionaram outros tantos. Os sobreviventes refugiaram-se na Serra do Mar e Cabo Frio.

Ao final da Guerra de Cabo Frio, os portugueses voltaram para o Rio de Janeiro e a região voltou a ser fonte de contrabando dos franceses, holandeses e ingleses.